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09 janeiro, 2015

Eu alimento-me de afectos


Eu alimento-me de afectos.

Dos abraços e beijos do meu marido, da forma carinhosa como me trata.

Do seu peito, que me serve de almofada, das mãos dele que se tornam as minhas luvas, dos braços que se transformam no meu casaco.

Alimento-me dos beijinhos e abraços dos meus filhos, dos elogios que me dão, da forma como demonstram que me amam, dos seus olhos brilhantes e dos seus sorrisos.

Eu alimento-me dos olhos dos meus irmãos, quando olham para mim e sinto todo o amor que sentimos uns pelos outros, dos risos deles quando relembramos a nossa infância.

Eu alimento-me dos abraços dos amigos, das festas que me fazem nos braços ou nos cabelos e dos beijos e abraços que lhes dou.

Eu alimento-me de afectos, de tanta gente que me trata bem, da bondade das pessoas que não tem limite, que se oferecem para ficar com os meus filhos, que se oferecem para tudo o que eu precisar quando os tempos estão difíceis.

Eu alimento-me de gestos simples mas cheios de significado, como um telefonema, um café tomado à pressa, só para me dar um beijinho. Um tacho de comida feito em casa de amigos, e trazido para a minha casa, só para podermos estar juntos.

Eu alimento-me de quem me quer bem e demonstra.

Eu alimento-me do amor que me dão e tento retribuir de todas as formas que me lembro, não sei se algum dia vou conseguir retribuir todo o amor e carinho que tenho recebido.

Obrigada a todos.

Ana Silvestre

27 novembro, 2014

A casa da minha mãe


Hoje a porta da casa da minha mãe fechou-se para sempre para mim. Acabou, nunca mais lá vou voltar.

Guardarei para sempre nas minhas memórias e nas fotos que guardei, aquela casa que foi para nós um palco do teatro das nossas vidas.

Guardarei e recordarei com saudades as memórias do que lá se viveu.

Não serei a única, os meus irmãos, restante família e amigos também a recordarão com saudades.

Aquela casa foi palco de amores, desgostos, festas, amor e riso, sim muito riso.

Nunca foi uma casa amorfa, há algumas que o são, mas não a da minha mãe.

Foi uma casa muito vivida. Uma casa muito habitada. Uma casa que estava quase sempre cheia de amigos, os da minha mãe e os nossos.

Era uma casa que cheirava a perfume e a comida porque na nossa casa os afectos passavam muito pela mesa e pela comida que se preparava para os amigos.

Há casas sem alma, as pessoas praticamente só lá vão dormir. Há casas tristes em que as pessoas que as habitam não conversam, não riem, não fazem brincadeiras. A casa da minha mãe era tudo menos isso.

Hoje fiz-lhe festas e despedi-me dela, tal como fazemos com as pessoas, agradeci-lhe tudo o que encerrará para sempre e aquilo que representou para todos os que por lá passaram e que foram muitos.

E sei que, quando os meus filhos tiverem de passar pelo mesmo e espero que o passem, porque significará que tudo correu bem e que a vida seguirá a sua ordem natural, sentirão o mesmo. A nossa casa nunca terá sido uma casa sem vida. Terá sido palco de muito amor, carinho, festas, desgostos, lágrimas e principalmente muito riso.

Porque é que eu conto estas coisas? Porque esta sou eu, sem véus.

Ana Silvestre