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27 novembro, 2014

A casa da minha mãe


Hoje a porta da casa da minha mãe fechou-se para sempre para mim. Acabou, nunca mais lá vou voltar.

Guardarei para sempre nas minhas memórias e nas fotos que guardei, aquela casa que foi para nós um palco do teatro das nossas vidas.

Guardarei e recordarei com saudades as memórias do que lá se viveu.

Não serei a única, os meus irmãos, restante família e amigos também a recordarão com saudades.

Aquela casa foi palco de amores, desgostos, festas, amor e riso, sim muito riso.

Nunca foi uma casa amorfa, há algumas que o são, mas não a da minha mãe.

Foi uma casa muito vivida. Uma casa muito habitada. Uma casa que estava quase sempre cheia de amigos, os da minha mãe e os nossos.

Era uma casa que cheirava a perfume e a comida porque na nossa casa os afectos passavam muito pela mesa e pela comida que se preparava para os amigos.

Há casas sem alma, as pessoas praticamente só lá vão dormir. Há casas tristes em que as pessoas que as habitam não conversam, não riem, não fazem brincadeiras. A casa da minha mãe era tudo menos isso.

Hoje fiz-lhe festas e despedi-me dela, tal como fazemos com as pessoas, agradeci-lhe tudo o que encerrará para sempre e aquilo que representou para todos os que por lá passaram e que foram muitos.

E sei que, quando os meus filhos tiverem de passar pelo mesmo e espero que o passem, porque significará que tudo correu bem e que a vida seguirá a sua ordem natural, sentirão o mesmo. A nossa casa nunca terá sido uma casa sem vida. Terá sido palco de muito amor, carinho, festas, desgostos, lágrimas e principalmente muito riso.

Porque é que eu conto estas coisas? Porque esta sou eu, sem véus.

Ana Silvestre

24 novembro, 2014

Faz dois meses que a minha mãe morreu


Faz hoje dois meses que a minha mãe morreu. Continua a parecer-me impossível saber que nunca mais vou poder abraçá-la, beijá-la ou simplesmente falar com ela.

Foram dois meses intensos de trabalho em sua casa, para desmontar tudo e vazá-la.

O trabalho em casa de cada um continua, com papéis e fotos para ver e decidir o que se há de fazer com eles.

Algumas pessoas ficaram surpreendidas com a morte da minha mãe, acharam-na repentina, talvez por não saberem o seu real estado de saúde.

Nós tivemos dois anos e meio para nos prepararmos, mas na realidade nunca estamos preparados.

Nos últimos dois meses da sua vida, os quais ela os passou internada, assistimos à sua deterioração, deixou de andar, inchou com a cortisona, apareceu-lhe “zona” o que lhe dava dores horríveis que só amenizavam com morfina, perdeu o cabelo e por fim, mal falava.

Nos últimos dias nós só pedíamos a Deus e aos médicos que ela não sofresse mais, sentíamos que estávamos a ser egoístas ao querer que ela permanecesse viva unicamente para sentirmos que ainda tínhamos mãe. E no entanto era como se já não tivéssemos, porque a abraçávamos e beijávamos muito e constantemente mas ela já mal reagia.

Nos últimos dois dias, deixou de comer, beber e falar.

Vi coisas naquele hospital que nunca esquecerei. Caras deformadas, pessoas com uma cor tal que pareciam mortas, pais com filhos doentes, pais a despedirem-se dos filhos, tal como nós fizemos com a minha mãe.

Chega a uma altura em que a única coisa que queremos é acabar com o sofrimento daqueles que amamos. Custa muito.

Ana Silvestre